Um estudo divulgado na madrugada desta terça-feira (no
horário de Brasília) descobriu que a circuncisão causa uma grande
mudança na população de micro-organismos do pênis, o que pode explicar
por que a prática oferece certa proteção contra o HIV e outros vírus. A
pesquisa foi publicada no jornal especializado mBio.
Segundo os cientistas, o procedimento causa uma queda
significativa na quantidade de bactérias anaeróbias - que vivem em
locais com oxigênio limitado - no pênis. Por outro lado, as bactérias
aeróbias tiveram um pequeno crescimento em sua população.
"A mudança na comunidade (de micro-organismos) é
realmente caracterizada pela perda de anaeróbias. É dramática", diz
Lance Price, pesquisador do Instituto de Pesquisa de Genômica
Translacional (TGen), do Arizona, e da Universidade George Washington,
da capital americana, e um dos autores do estudo. "Da perspectiva
ecológica, é como rolar uma pedra e ver o ecossistema mudar. Você remove
o prepúcio e aumenta a quantidade de oxigênio, diminuindo a umidade -
nós mudamos o ecossistema", diz o cientista.
Testes controlados indicam que a circuncisão diminui o
risco de infecção por HIV (entre 50 e 60%), de papiloma vírus (que causa
câncer de útero e de pênis) e de herpes. Contudo, os cientistas ainda
não entendem a biologia por trás desse processo.
Os pesquisadores usaram dados de uma grande experiência
com o uso da circuncisão em Uganda. Ao comparar exames de homens que
passaram pelo processo com outros que não passaram, os cientistas
descobriram que, após um ano, o microbioma do pênis mudava
significantemente.
Os cientistas ainda não entendem qual é o papel do
microbioma na aids, mas estudos indicam que as bactérias podem deixar o
pênis suscetível a infecções virais. Essas bactérias poderiam ativar as
chamadas células de Langerhans e as impediriam de fazer seu trabalho de
barrar a entrada dos vírus.
Um ponto interessante do trabalho é que ele indica,
segundo os cientistas, que entender as consequências na mudança do
microbioma do pênis pode inclusive levar a procedimentos que não
precisem de cirurgia. "O nosso trabalho, ao potencialmente revelar os
mecanismos biológicos escondidos, pode revelar alternativas à
circuncisão que poderiam ter o mesmo impacto biológico. Em outras
palavras, se nós descobrimos que é um grupo de anaeróbias que aumenta o
risco de HIV, nós podemos encontrar maneiras alternativas de diminuir
essas anaeróbias", diz Price.