| Durante a conferência de Outono da Associação Britânica de VIH verificou-se um amplo consenso sobre o facto de o tratamento eficaz contra o VIH reduzir significativamente o risco de transmissão do VIH. Contudo ninguém – nem mesmo um dos principais proponentes do que passou a ser conhecido como “a declaração suíça” – estava preparado para dizer que a transmissão do VIH nunca ocorre quando um indivíduo tem carga viral indetectável. Em Janeiro deste ano, um grupo de médicos reputados especialistas em VIH, emitiu uma declaração que afirmava que as pessoas seropositivas que estavam a tomar terapêutica anti-retroviral, que tinham carga viral indetectável e não tinham infecções sexualmente transmissíveis, não transmitiam VIH ao seu parceiro sexual. Ficou rapidamente conhecida como a “declaração suíça” e tem sido alvo de um debate acalorado desde então, tendo-se tornado num dos assuntos principais da Conferência Internacional sobre SIDA, realizada no México este ano. Foi consensual que o tratamento para o VIH que suprime a carga viral no sangue até atingir níveis indetectáveis, reduz significativamente o risco de transmissão de VIH durante uma relação sexual desprotegida. Ouviram-se, no entanto, algumas vozes dissidentes, de alguns especialistas australianos em VIH que desenvolveram um modelo que assume que não existe nenhum limite abaixo do qual a transmissão não ocorra. Porém um editor que acompanhou este trabalho rejeita a metodologia, afirmando que negar o impacto do tratamento para o VIH no risco de transmissão é “desonesto e fútil”. A reunião de Outono da Associação Britânica de VIH possibilitou que os médicos, técnicos de saúde e activistas da comunidade do Reino Unido tivessem oportunidade de discutir a ciência por detrás da “declaração suíça” e o seu impacto nas pessoas que vivem com o vírus. “Indetectável = Não infeccioso” Não foi apresentada nenhuma informação científica que não tenha sido já extensamente debatida no que diz respeito ao assunto “Indetectável = Não infeccioso”. O Prof. Bernand Hirschel, do Hospital Universitário de Genebra, discutiu sucintamente os estudos que demonstravam que os pacientes com carga viral indetectável não estavam a transmitir VIH. Também apresentou um slide que resumia um estudo conduzido no Ruanda que atestava que o tratamento para o VIH era mais eficaz na prevenção da transmissão do VIH que a promoção do preservativo. Este estudo, apresentado na Conferência Internacional sobre SIDA em 2006 (Kayitenkore K et al. 14a Conferência Internacional sobre SIDA 2006, abstract no. MOKC101), demonstrava que só houve 2 casos de transmissão de VIH em 248 casais serodiscordantes, em que o parceiro seropositivo recebia tratamento para o VIH (uma taxa de transmissão abaixo de 1%), quando comparado com 40 transmissões (uma taxa de transmissão acima dos 5%) nos casais serodiscordantes em que o parceiro seropositivo não recebia tratamento para o VIH e em que era promovido o uso do preservativo. Sendo assim, Hirschel conclui que os dados apresentados mostravam que aparentemente o tratamento para o VIH era mais eficaz que os preservativos na prevenção da transmissão do VIH. A favor do argumento “Indetectável = Não infeccioso”, o Prof. Hirschel também resumiu estudos que demonstravam a redução do risco de transmissão de VIH mãe - filho, quando a mãe estava sobe tratamento para o VIH e tinha carga viral indetectável ou muito baixa. Todavia, o Prof. Hirschel reconheceu que em medicina “nunca se deve dizer nunca” e também que a informação actual estava restringida a casais heterossexuais. Replicação do VIH nos aparelhos genitais O Dr. Steve Taylor da Universidade de Birmingham apresentou dados de alguns estudos que se centraram na replicação do VIH no tracto genital de homens e mulheres medicados para o VIH. Emergiu destes estudos um padrão consistente. Os homens com carga viral indetectável tinham quase sempre níveis indetectáveis de VIH no esperma (embora a carga viral se tornasse detectável nesse liquido corporal quando havia presença de uma infecção sexualmente transmissível). No entanto, nas mulheres, os estudos revelaram um panorama mais complexo, com mais de 30% de mulheres a apresentar VIH no aparelho genital apesar de terem carga viral indetectável no sangue. Taylor sugeriu que a replicação localizada do VIH no compartimento genital durante a terapêutica para o VIH pode, em algumas circunstância, conduzir ao desenvolvimento ou potencial transmissão de vírus resistentes aos fármacos. Acrescentou ainda que não existem dados suficientes sobre o efeito do tratamento para o VIH na carga viral da mucosa rectal. O único estudo existente revelou que o VIH era detectável neste compartimento não obstante o tratamento eficaz para o VIH. A reacção da comunidade – homossexuais Edwin Bernard, editor do HIV Treatment Update da NAM (que publicou três artigos relevantes nos últimos anos sobre o impacto da terapêutica na infecciosidade), salientou os pontos principais da resposta da comunidade (sobretudo de homossexuais) à “declaração suíça”. Bernard comparou esta reacção a um clássico “processo de luto”, onde as pessoas negam a declaração, reagindo com fúria, discutindo, ficando deprimidos com as suas implicações, ou aceitando-a. Apercebeu-se ainda que, os homens que tinham uma relação problemática com o preservativo eram mais sensíveis à declaração, sobretudo porque percepcionam que o sexo sem preservativo aumenta a intimidade. Bernard acrescentou ainda que a relação de um indivíduo com o risco e a percepção deste são também importantes na respectiva interpretação da declaração. Se a terapêutica eficaz mudar a definição de “sexo seguro”, então decidir o quão seguro é o “sexo - seguro” tornar-se-á uma decisão pessoal e individual. Os médicos, bem como as pessoas infectadas pelo VIH e os seus parceiros sexuais precisam então de mais competências para perceber e avaliar os riscos do sexo, em comparação aos outros risco da vida, concluiu. A reacção da comunidade – mulheres Silvia Petretti da Positively Women apresentou os resultados de um inquérito a mulheres seropositivas sobre a “declaração suíça”. Este revelou uma variedade de respostas, tendo as mulheres revelado argumentos a favor e contra. Os argumentos contra incluem o obscurecimento das mensagens de sexo seguro, e algumas mulheres aperceberam-se que o documento também poderia tornar a negociação de sexo seguro mais complicada. Foram também expressas preocupações sobre as implicações do herpes genital crónico. Foi sugerido que a declaração poderia significar que a saúde sexual se resume estritamente ao risco de transmissão do VIH e isso levanta questões acerca das implicações que pode ter para os utilizadores de drogas endovenosas. Mas as mulheres inquiridas por Silvia Petretti também viram benefícios na “declaração suíça”. Algumas afirmaram que a declaração confirmava o que algumas delas já estavam a fazer, e também referiram que uma das implicações poderia ser uma maior facilidade na concepção. Outros benefícios mencionados incluíam um incentivo à boa adesão à terapêutica. O estigma também poderia ser reduzido pela declaração, se as pessoas com VIH em tratamento não fossem vistos como “vectores” da doença. Apercebeu-se, no entanto, que muitas das mulheres inquiridas desconheciam a declaração e comparou esta constatação com a propagação de conhecimento sobre estudos que sugerem que a circuncisão poderia reduzir o risco de infecção para os homens. Sendo que o efeito protector da circuncisão neste estudos é no máximo 60%, muito menor que o efeito protector da terapêutica. Reacções no Reino Unido em geral A organização da conferência só disponibilizou uma hora para esta sessão, pelo que houve pouco tempo para uma discussão detalhada das apresentações ou para questões vindas da audiência. Contudo, o Prof. Hirschel sublinhou que o número reduzido de infecções com probabilidade de ocorrer a partir de pessoas com cargas virais indetectáveis era negligenciável, em termos de significado para a saúde pública, quando comparado com o número avultado de infecções originadas pela falta de diagnóstico, um comentário que foi acolhido com um grande aplauso. |
| Fonte: Aids Map (Tradução: www.gatportugal.org) |
| www.aidsmap.com/pt/news/BABFDDAF-31F0-48B0-8804-14683C9C7A44.asp http://www.positivo.org.pt/site/noticia_detalhe.php?ADkCYwtela9Xr1tela9Xr1=AGECMwtela9Xr1tela9Xr1&ACACZghk=AB4CSAhXUUkKTFFPURwGAwtela9Xr1tela9Xr1 |